
Tinha 11 ou 12 anos quando a minha mãe se apercebeu que o filho dela, o Zézito, tinha a coluna torta. Lembro-me de me dobrar e de sentir as mãos dela a acompanharem as vértebras. Os meus pais levaram-me a um ortopedista que me diagnosticou uma
Escoliose Dupla em S Idiopática. Mandou-me fazer 90 abdominais por dia e obrigou-me a usar um colete Milwaukee. Andei com aquele pesadelo vestido durante 3 anos, entre os 12 e os 15. Estava no 10º ano quando fui encaminhado para o serviço de ortopedia do Hospital São João. Disseram-me que teria de ser operado o mais depressa possível. Sinceramente, não me lembro de ficar preocupado, nem da minha família ficar desesperada. Na altura, não tinha dores nem sentia nada de anormal no meu corpo.
Esperei 2 meses no hospital pela cirurgia. Acordei com muitas dores - disseram-me para carregar num botão sempre que voltassem (suponho que me injectavam morfina). Levantei-me, tonto, com mais 5 centímetros. Fui para casa com muitos comprimidos. Tinha os movimentos completamente limitados e não podia subir nem descer escadas. Lembro-me dos amigos e vizinhos em casa e de toda a gente ser muito porreira. Comia muita canja.
Cinco anos depois, o mesmo ortopedista que me operou disse-me que não precisava de voltar ao hospital e que podia fazer tudo para ter uma vida completamente normal. Assim foi. Tive namoradas, namorados, fiz natação, corri, levantei pesos, viajei, conduzi, diverti-me, vivi, sempre com a consciência de que não era completamente simétrico.
Hoje, tenho 27 anos e sinto-me o protagonista de uma variação do Dr. Jekyll e Mr. Hide. Se sempre tive uma das omoplatas mais saliente, actualmente, toda a parte direita da minha caixa torácica sobressai numa deformidade que me oprime diariamente. Ando a perder altura. De 1,86 em 2005 passei para 1,83. Cada dia que passa, sinto-me mais desfigurado: seja ao vestir uma t-shirt, ao encostar-me a uma cadeira, ao andar, ao ver-me ao espelho. Tenho segunda-feira uma consulta no Hospital São João.
Estou assustado. Assustado com o futuro. Acho que ninguém está preparado para viver deformado. Não sei o que me podem fazer. Sei que não há cura para isto. Sei que a desrotação da coluna é muito difícil em adultos. Mas sei também que é possível cortar costelas, através de uma cirurgia que se chama toracoplastia, e minimizar a deformidade. Tenho apenas 27 anos e sempre vi o futuro como o melhor que ainda está para vir. Não estou preparado para o enfrentar numa dimensão fisicamente distorcida que me anula qualquer auto-estima. Não quero imaginar como será daqui a 10 ou 20 anos.
Preciso de coragem, mas não sei onde anda.